José Paulo Paes, 100 Anos: memórias de tio Zé

21 de julho de 2026

Para celebrar o centenário de José Paulo Paes, seus sobrinhos fizeram uma homenagem ao autor de obras como  Em tempo escuro, a palavra (a) clara e Melhores Poemas José Paulo Paes. Confira:

Tio Zé era mesmo sujeito tímido e reservado que, em última análise, sempre nos pareceu antipatizar com a ideia de fama e afins.

Por isso, parece estranho participar de seu centenário de nascimento tornando público algo sobre alguém que tanto prezava a sombra da discrição.

Contudo, não há como deixar de celebrar sua obra e, por extensão, sua vida, quase toda ela dedicada à literatura e às pessoas com quem viveu e conviveu sob diferentes graus de proximidade. E foram muitas. Dessas, sabem todos, tia Dora certamente ocupou o centro. E nós, cada qual chegando a seu tempo, de imediato fomos acolhidos na intimidade que o casal de tios sustentou carinhosamente até o último de seus dias.

Quase nada vivido nesse espaço íntimo destoa daquilo que chegou à esfera pública sobre o poeta, pois havia uma tenaz coerência entre o sujeito comum e o intelectual. Exemplo simples: a disponibilidade para o diálogo e o interesse genuíno e curioso que apareciam junto a artistas, escritores e acadêmicos estavam lá quando comentava sobre uma história em quadrinhos ou banda grunge que acabávamos de lhe apresentar. E tudo, das altas abstrações ao efêmero do pop, tudo conversado sob as mesmas e inconfundíveis voz baixa e delicada dicção. Mas, longe disso soar tedioso, pois junto a essa brandura havia o bom humor matreiro, o apreço por trocadilhos, a constante abertura para o riso.

Assim, sabíamos que após o exigente ofício do tio vivido diariamente no recolhimento do escritório, feito de longos silêncios interrompidos somente pelo tilintar da máquina de escrever (e depois pelo batuque seco do teclado), haveria a zoeira das tardes no jardim do quintal ou as longas noites das sessões de filmes na TV. Depois, mais crescidos, finalmente descobrimos que entre a atmosfera sóbria cheirando a livros do escritório no fundo da casa e as conversas animadas por chistes e brincadeiras com a linguagem nossa de cada dia, brotava parte daquilo que está presente na obra de José Paulo Paes. Obra essa que, entranhada ao viver do poeta, por ser plural em modalidades e leitores, ultrapassou o escritório, o jardim, a casa, e hoje alcança um tempo que, para além da atual efeméride, segue mais adiante…

 

Por: Andréa Paes Favalli (sobrinha de José Paulo Paes e psicanalista) e Carlos Paes Favalli (sobrinho de José Paulo Paes e psicólogo clínico).

 

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